
Era para ser João é um projeto de espetáculo solo de Cadu Cinelli que traz uma investigação genealógica sobre suas origens paternais marcadas pela tragédia social e climática. O nó determinado pela enchente de 1966 no Rio de Janeiro marca a biografia de sua família paterna, assim como de muitas outras pessoas nas mesmas condições sócio-econômica e culturais. Falar do avô João é ao mesmo tempo falar para dos transbordamentos de além do núcleo familiar, é poder fabular sobre os tantos silenciamentos cravados nos rastros de vida.
Este projeto teve como ponto de partida o site/instalação com vídeos (era para ser João – de cadu cinelli) , fotos e áudios de autoria de Cinelli. Aqui há um atravessamento das linguagens que lhe são caras, como a narração de histórias, o bordado, a dança, as artes cênicas e o audiovisual. Esta proposta nasceu durante a residência artística na 9a edição do IMP – Investigação do Movimento Particular coordenado por Juliana Adur e Cindy Napoli ao longo de mais de um ano, entre 2020 e 2021. Pouco a pouco, ao longo do processo da residência, com as provocações sobre seus movimentos, nas oficinas e trocas com artistas residentes, foram emergindo algumas questões entorno de seu avô paterno, sobre a sua história de vida tão silenciada e fragmentada na memória coletiva familiar.
Uma vez publicado o site como resultado do trabalho desenvolvido ao longo da residência artística no IMP, Cadu seguiu sua investigação no desejo de construir uma dramaturgia para um solo. Nesse sentido participou do Ateliê de Escrita ministrado pelo diretor e dramaturgo paulistano Dante Passarelli. Ao longo dos encontros Cadu desenvolveu uma dramaturgia narrativa que aqui se apresenta como parte desse processo de criação e construção deste trabalho.
Cadu diz “Ainda existem muitas lacunas e dúvidas sobre ele. E muitas eu continuarei sem saber. Mas esse trabalho não é só sobre ele… é o que ele representa para além de sua biografia. Também é sobre uma constelação de relações em escalas diferentes, no privado e no público. Assim, com essas questões é que me movimento, na tentativa de resgatar os registros, para um inventário de uma genealogia transbordada para além da própria biografia. Fazendo do meu corpo como morada nesta existência e realização de uma ancestralidade. A enxurrada quando passa deixa resquícios, vestígios, silêncios e reminiscências de muitas histórias não contadas que emergem para serem compartilhadas”.
Cadu Cinelli nasceu em dezembro de 1979. É ator, contador de histórias, diretor de teatro, artista educador e têxtil. Integra o grupo Os Tapetes Contadores de Histórias desde 1998. Atualmente reside na cidade de Curitiba onde desenvolve o projeto Percursos Afetivos sobre narração de histórias itinerantes com bicicletas. Vem também se debruçando sobre a narração e escuta de sonhos na performance narrativa Caderno de Sonhos. É doutor em Geografia na UFPR, com tese sobre Narração Geoartística. Recebeu os seguintes prêmios em 2025: BAOBÁ de Contadores de Histórias, Excelência em Tese da UFPR e o GRALHA AZUL pela direção do espetáculo PLUMAJE. Ao longo dos anos vem se dedicando às artes da palavra enquanto performance narrativa em confluência com as artes têxteis.
Ficha técnica:
Criação, performance e montagens (site): Cadu Cinelli
Orientação na residência IMP 2020/21: Juliana Adur e Gabriel Machado
na residência IMP2 2026: Juliana Adur e Maíra Lour
Captação de imagens para vídeos para site: Cadu Cinelli e Lívea Castro
Agradecimentos: Ádia Anselmi, Bia Figueiredo, Camila Cequinel, Cindy Napoli, Cintia Napoli, Dag Bach, Dante Passarelli, Eraldo Alves, Gabriel Machado, Gladis dos Santos, Greice Barros, Janaína Matter, Juliana Adur, Leonardo Tasques, Lívea Castro, Maíra Lour, Naiara Parolin Bastos, Viviane Mortean, Tuca Pinheiro. Em especial, meu agradecimento ao querido Fabricio Moser, por um dia termos caminhado e dançado com biografias em cena – esse trabalho se alinhava com os movimentos suscitados com o nosso DUO sobre desvios.


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